Lacan e a clínica da invenção
- Maria Eduarda Domingues
- Dec 2, 2025
- 2 min read

Recentemente, terminei de ler o seminário 20, de Lacan, mais, ainda. Na página 12 da edição da editora Zahar, Lacan nos anuncia que o título desse seminário tem relação com o amor: “ [...] porque o amor demanda o amor. Ele não deixa de demandá-lo. Ele o demanda… mais… ainda. Mais, ainda, é o nome próprio dessa falha onde, no Outro, parte a demanda do amor.” Lacan, 1975/2008, p. 12.
De acordo com Lacan, o amor é uma tentativa de se haver com algo da ordem do impossível que acompanha a vida, da falha impossível de consertar. O impossível, nessa perspectiva, tem relação com aquilo que se faz insimbolisável, que não é possível de escrever pelas vias que conhecemos. Para Lacan, o impossível se revela, não só, mas principalmente, a partir da inviabilidade de se fazer Um a partir de dois - sem que, nesse caso, uma das partes desapareça.
Lacan, ao longo de sua trajetória psicanalítica, foi marcando cada vez mais sua posição contrária à ideia de uma completude possível para os sujeitos,- especialmente pela via da relação sexual -. defendendo que uma boa relação com a vida e com os outros se dá, justamente, por meio do incompleto, da falta, da falha. O que se vê, no fim das contas, em uma análise, é que, como disse Ana Suy, a gente mira no amor e acerta na solidão.
A tentativa de completude, tende, geralmente, a escancarar o impossível de se completar. Para Lacan, esse ponto se torna crucial em um processo de análise: se deparar com a falta pode fazer surgir um convite à inventividade, inclusive em relação ao amor. O amor é uma invenção, uma tentativa, segundo Lacan, de suturar o impossível - uma das mais criativas, diga-se de passagem. A aposta da psicanálise lacaniana, então, se faz no convite à inventividade, à criação, a partir da falta constituinte dos sujeitos: aprender a inventar alguma coisa - qualquer coisa - com os próprios buracos.
A psicanálise lacaniana, nessa direção, subverte o discurso hegemônico e sedutor de uma vida plena e completa, e de relações que se sustentam pela via da identificação e de uma ideia de amor que levaria dois a se tornar um só, defendendo, então, uma prática clínica que sustente a incompletude, o estranho e a diferença, para que, a partir disso, os analisandos se autorizem a aceitar o convite à inventar moda com os recursos possíveis e não com os recursos ideais, construindo, com a vida e com os outros, relações autênticas, que dêem conta de suportar os atravessamentos do impossível e as incompletudes do amor.



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