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Memória

  • Writer: Maria Eduarda Domingues
    Maria Eduarda Domingues
  • Jan 23
  • 2 min read

Tenho pensado sobre a memória, sobre o que se é lembrado. A palavra memória é derivada do termo, em latim, “memorare”: pôr na memória. Essa definição é interessante porque contempla nela uma ação - “pôr” -, dando indícios, com isso, que, o que se é lembrado impõe um trabalho, que pode ser interpretado como um trabalho de elaboração. 

Freud, nos primórdios da psicanálise, deparou-se, em sua clínica, com uma dinâmica psíquica que nomeou como recalque: um mecanismo de defesa do sujeito neurótico que visa, no movimento de lançar ao inconsciente desejos, memórias, pensamentos angustiantes, driblar o sofrimento e a angústia. A partir disso, o psicanalista se deu conta de outra dinâmica, decorrente da primeira: o retorno do recalcado. O que Freud descobriu foi que o que está recalcado não desaparece, não é esquecido completamente, e tende a retornar com mais potência. Aquilo que é esquecido, recordado, mas não elaborado, tende a se repetir. 

De acordo com Platão, saber é lembrar, isso quer dizer que, quando se passa a saber de algo, na verdade isso se trata do encontro com o reminiscente, do encontro com traços de memória que preservam algo que não desapareceu no esquecimento. O passado se coloca no presente, atualizando-se a partir da forma como este se apresenta, e invade o futuro com repetições antigas. 

Recordar, para a psicanálise, carrega consigo a possibilidade de, por meio de muito trabalho e elaboração, criar outras vias de existência e de relação com os outros e com a vida, para além da via da repetição. A psicanálise pode ser considerada uma via de tratamento pela palavra, mas uma palavra com potência de lembrança e de elaboração. Em seu percurso, Freud formulou a teoria das memórias encobridoras, postuladas como lembranças para não lembrar, que tangenciam recordações importantes e mantém a lógica da repetição.

Ou seja, não só não basta só lembrar, como não é qualquer memória que de fato se faz efetiva em um processo de elaboração em uma análise, insistindo que, aquilo que não pode ser suportado em ser lembrado, repete-se. Freud exemplificou essa teoria a partir de casos clínicos, mas também a partir de análises sociais, políticas e econômicas do cenário de sua época, denunciando e escancarando o perigo do esquecimento no contexto de causas e lutas coletivas, enfatizando a importância da recordação e do trabalho de elaboração coletiva para que de fato hajam transformações na relação com os outros e com a vida. 


 
 
 

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