Psicanálise e arte
- Maria Eduarda Domingues
- Dec 12, 2025
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“A arte existe porque a vida não basta” - Ferreira Gullar
Freud, ao longo da construção da psicanálise, algumas vezes fez referência à artistas e à produções artísticas para elaborar suas perspectivas sobre o funcionamento do inconsciente e da subjetividade humana; ele foi considerado um apreciador de arte em suas mais diferentes formas. Em seus textos, Freud se usou da pintura, escultura e literatura para construir suas análises acerca das dinâmicas da psique, propondo perspectivas que se constroem a partir de diferentes pontos de referências: ora a obra, ora o autor, ora a relação da arte com as manifestações do inconsciente.
Leonardo da Vinci, Michelangelo, Salvador Dalí, Dostoievski e Goethe são alguns dos nomes presentes nas obras de Freud, por meio dos quais o psicanalista exemplifica como a arte se faz um recurso para lidar, nas palavras de Lacan, com o impossível da vida. Freud, em uma de suas aproximações da arte com a psicanálise, defende que a fantasia é uma via imprescindível da existência, associando a fantasia do artista ao ato de brincar, alegando que a brincadeira, para a criança, é uma via de realizar suas fantasias e que isso se faz tão sério quanto a própria realidade. Nesse sentido, o psicanalista propõe que, para o artista, suas criações artísticas assumem a mesma função que a brincadeira para as crianças: criar um espaço no qual certas fantasias podem ser elaboradas, transformadas ou figuradas
Autuori e Rinaldi (2014) defendem que, ao brincar, a criança se comporta como um artista, evidenciando que, para a psicanálise, encontrar uma via possível para realizar algumas fantasias pode representar uma forma de se haver com a dimensão do impossível, da castração, da falta que constitui a vida. No texto “O interesse científico da psicanálise” (1913-1917), Freud alega que:
“A arte é uma realidade convencionalmente aceita, na qual, graças à ilusão artística, os símbolos e os substitutos são capazes de provocar emoções reais. Assim, a arte constitui um meio caminho entre uma realidade que frustra os desejos e o mundo de desejos realizados da imaginação – uma região em que, por assim dizer, os esforços de onipotência do homem primitivo ainda se acham em pleno vigor “. (p. 222)
Para Freud, a arte chegou antes que a psicanálise em lugares do inconsciente; segundo o psicanalista, foi o artista literário, o poeta, que o deu indícios sobre o funcionamento da fantasia na subjetividade do sujeito adulto. Assim, as criações artísticas ilustram — e antecipam — o que a psicanálise viria a reconhecer como efeito de um processo de análise: inventar algo singular a partir da falta, do desejo e da impossibilidade que estruturam a vida.



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