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Quem foi Jacques Lacan para a psicanálise e por que ele foi considerado subversivo?

  • Writer: Maria Eduarda Domingues
    Maria Eduarda Domingues
  • 5 days ago
  • 2 min read
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Jacques Lacan nasceu em 1901, na França - coincidentemente, no mesmo período em que, na Alemanha, Freud consolidava a psicanálise. Lacan se formou em medicina, especializando-se em psiquiatria. Em 1932, o psiquiatra defendeu sua tese de doutorado sobre psicose paranóica, tema que o levou a estudar a teoria freudiana sobre o inconsciente e o tratamento pela fala (associação livre), a fim de propor uma nova perspectiva sobre a loucura. Foi nesse ponto que se deu início ao movimento de retorno à Freud por parte de Lacan.

Enquanto se debruçava na psicanálise freudiana, Jacques Lacan também realizou sessões de análise com um psicanalista polonês que atuou na Alemanha, França e Estados Unidos, Rudolph Loewenstein. A partir dessa experiência enquanto analisante, e das elaborações que surgiram do seu retorno à Freud, Lacan se deparou com as construções teóricas e práticas dos psicanalistas pós-freudianos, especialmente daqueles que participavam da proposta norte americana da psicanálise do Eu, como a própria filha de Freud, a psicanalista Anna Freud.  Nos anos 50, então, vai se enfatizando o caráter subversivo de Lacan perante seu tempo e perante às construções teóricas e intervenções clínicas propostas no campo da psicanálise e da medicina, estabelecendo sua posição crítica e contrária à psicanálise do Eu.

A crítica de Lacan se fundamentou no argumento de que a psicanálise do Eu se fundou na intenção de fortalecer o Eu a fim de adaptá-lo à sua realidade, enquanto que, o que Freud propôs, segundo Lacan, foi a primazia do inconsciente perante o Eu, sendo este, para Freud, “apenas” um mediador frágil entre o inconsciente e a realidade. A diferença entre essas perspectivas se deu, principalmente, no direcionamento clínico, uma vez que, para a psicanálise do Eu, o interesse está em tornar consciente o que está no campo do inconsciente, na intenção de tornar o sujeito adaptável às demandas do seu tempo, enquanto que, para Lacan, o interesse de uma análise é, a partir do inconsciente, abrir espaços e encontrar caminhos para escrever, e reescrever, uma vida ética em relação ao próprio desejo, a partir da elaboração daquilo que se revela como a verdade do sujeito - verdade essa que é sempre “semi”, não-toda - por meio das manifestações inconscientes: sonhos, atos falhos, chistes, sintomas… 

Nesse sentido, Jacques Lacan sustentou sua psicanálise para além do que pede a norma padrão, e sustentou, também, as consequências disso - como sua saída da Associação Psicanalítica Internacional em 1953, e novamente em 1964. Lacan, até o final de sua vida, defendeu a ideia de um sujeito dividido, inevitavelmente em conflito consigo mesmo e com a sua suposta identidade, distanciando-se da ideia de plenitude e de unificação do Eu. 

A partir disso, pensando no fim de uma análise, pode-se assumir que, para Lacan, tem relação com a criação de narrativas individuais, por parte do analisante, que dêem conta de suportar suas contradições, suas faltas, seus conflitos e estranhezas perante si mesmo e perante o outro e a vida, buscando bancar uma posição desalienada e ética perante os próprios desejos. Lacan, portanto, distancia-se de uma psicanálise que se propõem à adaptação ao meio social e cultural, aproximando-se de uma proposta inventiva, criativa e autêntica, contemplando, na sua ideia de cura, não a ausência de sintomas, mas o saber fazer com ele. 


 
 
 

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